Daniela Mendes

Não ama, mas estupra

In Capitães de Areia, Feliz Ano Velho, Gaspar Noé, Irreversível, Joca Reiners Terron, Jorge Amado, Leandro Sarmatz, Marcelo Rubens Paiva, Mary Poppins, Natural Born Killers, Oliver Stone, Programa Sílvio Santos, Programa do Jô, Quentin Tarantino, The Beatles on 29/05/2009 at 3:52

Lembro quando vi Natural Born Killers (Oliver Stone & Quentin Tarantino) pela primeira vez. Alheia à existência deste fui abduzida por duas amigas a ver o DVD numa sala na universidade. Eu, que sempre fui muito impressionada com os “aperitivos” que se usa para melhor apreciar um filme, saí da sessão em êxtase direto para aula de psicologia social. Descobri que eu era bobinha ali e minha alma de Mary Poppins me fez ficar dias com um nothing is real à la Beatles na cabeça.

Mick & Mallory

Morder a realidade assim só anos antes, na escola, com Jorge Amado. Fui testemunha quando Pedro Bala, o chefe dos Capitães de Areia, perseguiu uma mulatinha na praia e a fez “tombar”. Pra quem não leu o livro isso significa que ele pulou em cima dela e meteu o pinto no cuzinho da menina. Isso, no rabo! Porque ela implorou encarecidamente que não a estuprasse pela buceta para mantê-la virgem. E no fim a história termina assim:

Ilustração de dentro do livro de Aldemir Martins 57# edição pela editora Record

Ilustração de dentro do livro - Aldemir Martins 57# edição pela editora Record

- Se eu te deixar tu volta amanhã?
- Volto, sim.
- Só faço o que fiz hoje. Te deixo donzela…
Ela fez que sim com a cabeça. Seus olhos estavam iguais aos de um doido e naquele momento só sentia pavor, vontade de fugir. (…)
- Vou te levar para um malandro não te pegar.
Foram os dois e ela chorava. Ele quis pegar na mão dela, ela não deixou e se afastou dele. Ele tentou novamente, novamente ela tirou a mão. Então ele disse:
- Que diabo é isso?
E foram de mãos dadas. Ela chorava e aquele choro foi angustiando Pedro Bala, foi fazendo com que voltasse sua inquietação do começo da noite, (…) Ela soluçava e ele falou com raiva:
- Que foi que tu teve? Tu não teve nada…
Ela apenas o olhou e seus olhos (…) estavam cheios de ódio e desprezo. Pedro baixou a cabeça, não sabia o que dizer, não tinha mais desejo nem raiva, só tristeza no coração. Ouviram uma música de um samba que um homem cantava na rua. (…) Agora se sentia mais fraco que ela, a mão da negrinha pesava na sua como se fosse chumbo.

Nem vou citar aqui Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva, aos dez anos de idade. Tinha prazer da narrativa dos rocks e putarias dele, sem me importar com o acidente que ele sofreu ou saber o que significava “dar uma bola”. Meu irmão e eu sempre admirávamos mais as revistinhas Marvel que reproduziam sangue nos heróis… Estou falando da minha infância e pré-adolescência, que fique claro.

Estas coisas todas não fizeram de mim uma psicopata. Pelo contrário, me fizeram humana a ponto de um dia acreditar na psicologia. São escolhas de obras de arte (sim!) feitas quase que ao acaso e determinaram a minha formação literária. Tenho tanto medo de ser estuprada que não consegui ver Irreversível ( Irréversible, Gaspar Noé) de tão boba que sou e não assistirei. Só uso drogas para festejar e penso sempre duas vezes ao esmagar um inseto, mesmo sendo mosca. Ora! É a arte que imita a vida e não o contrário.

Irreversível

Por isso é mesmo um absurdo toda a polêmica em torno da inclusão dos poemas de Joca Reiners Terron no livro “Poesia do Dia”, organizado por Leandro Sarmatz e publicado pela Editora Ática, comprado e distribuído pelo Estado de São Paulo, no programa Ler e Escrever. O negócio já virou matéria do Jornal do SBT, nesta quinta-feira, e as opiniões gerais é de que uma espécie de canal para um vírus maléfico foi aberto e irá poluir nossas pobres criancinhas. Se bobear Terron fica mais famoso que a gripe suína. Só que com direito a ir no Programa do Jô.

Uma amiga educadora disse que o problema é realmente complicado, visto que as crianças não são leitores de literatura e digerem tudo como informação. Puxa vida! Então o problema não é a escolha dos poemas de Terron. Mas, mais uma vez o ensino. Porque se uma criança não consegue compreender as relações entre ficção e realidade nem entender o sentido de literatura e arte, a culpa não é do poema.

Também há de se considerar, infelizmente, que já faz muito tempo que um percentual muito grande de crianças não tem direito a um mundo colorido e fantástico de algodão-doce. Convenhamos, que uma criança de periferia de uma cidade feito São Paulo ou Rio de Janeiro já não é bem a criancinha idealizada pelos moralistas de plantão. Violência, drogas e sexo há muito já fazem parte de seu cotidiano. E de forma confusa, friso. Acredito que nada melhor que poesia para ajudá-las a organizar esta “informação”. E não acho um absurdo a adoção da poesia ácida de Terron nas escolas. Pior, muito pior, é o que elas vêem nas novelas ou a humilhação pública de uma menininha em cadeia nacional no Programa Sílvio Santos.

Agora, não há como negar: estou amando a polêmica por um lado. Os moralistas disfarçados estão todos se revelando em prol da salvação de seus filhinhos. A incoerência e a incompetência é o traço do canalha, já dizia qualquer um. Sem falar que Terron finalmente devolveu à literatura aquela sua função mais nobre, né? Depois da academia calcificar a subversão de Jorge Amado, eis que com muito menos palavras a maldição revive: “Não ama, mas estupra”.

  • Leia aqui e aqui os belíssimos poemas de Terron. (Não. Chega dessa coisa de maldito – cansei!)
  • Aqui você poderá apreciar a burrice nos comentários. Eu, tô lá. Foi antes de decidir escrever este texto. Claro não me refiro a mim.
  • Aqui talvez você entenda melhor o que eu quis dizer.